SONHOS DESCALÇOS

 

 

ELA CORRIA sem parar enquanto a cor da noite manchava a planta de seus sonhos descalços. O que fazer quando sua única certeza é a de que não se deve parar? Afinal, parar significa pensar, e pensar neste momento não seria uma boa ideia, dadas as circunstâncias. Deveria ter dito alguma coisa que fizesse mais sentido para todos, ou mesmo levado uma mochila. Ainda assim, a quantidade de dinheiro que levara seria suficiente para um salto no futuro incerto que estava beirando, cheirando, tateando com os olhos úmidos.

 

ALGUMAS VEZES a possibilidade mais certa é o retorno, bem cedinho, ao cheiro do café, ao pãozinho quente com um véu de manteiga, a cadeira perto das plantas úmidas pelo orvalho, aos tomatinhos-cereja felizes aguardando ansiosamente para serem colhidos. Ah, aqueles grampos no seu cabelo, tão lindos! Não há como olhar para um deles e não se lembrar também do pente vermelho, sempre colocado sobre a tv.

 

MAS, NÃO HÁ TEMPO PARA ISSO, enquanto da fenda do céu pequenos diamantes começam a rolar e cair sobre ela, e sobre a noite, e as outras pedrinhas que brotam de suas retinas tristonhas. Ela sabe que não pode parar, ela pensou muito nisso, sabia que não haveria uma segunda chance e que por mais que estivesse doendo, como uma ferpa que insiste em incomodar antes de sair. Era assim que seria embora, não fosse assim, que deveria ser.

 

O DRAMATURGO IRLANDÊS Oscar Wilde disse certa vez que há ocasiões em que o sofrimento parecia-lhe ser a única verdade. Para algumas pessoas, a única verdade é aquilo que elas têm. Para ela o movimento era a réstia de esperança em meio ao oco que sua vida se tornara. Parar não era e talvez, nunca mais seria uma possibilidade.

 

PARAR DARIA ESPAÇO PARA O VAZIO. Aquela angustia intensa, aquela dor ao sentir como sua vida tinha perdido seu rumo. E aqui, correndo em uma direção qualquer, ela sentia o espírito da vida inflar seu peito. A tristeza foi saindo de si junto com suas lágrimas. Ela corria, mas aos poucos passou a caminhar. E passou a caminhar lentamente, olhando para tudo ao seu redor com novos olhos. A esperança dava a tudo uma nova cor.

 

ELA SEGUIA EM FRENTE, mas por um instante parou em frente a uma vidraça, e na escuridão da noite viu seu próprio reflexo. O cabelo brilhava com gotículas de água. Ela olhava, olhava, e não sabia o que via. Em algum momento no passado, sua alma tanto se perdeu que ao olhar seu reflexo não sabia mais quem era. Ergueu a mão e tentou tocar sua própria imagem, mas a única coisa que sentiu foi o frio do vidro. O frio de seus prórprios sentimentos. O frio da perda de si mesma.

 

COM UM RESPIRO PROFUNDO, ela continuou perambulando, olhando as luzes da cidade. Parecia que o clima seguia seus sentimentos. Com a chuva, com as lágrimas, começou a se sentir mais em paz com sua fuga. E o céu respondia. A chuva parou, o sol começou a raiar. O calor em sua pele aquecia seu coração. Ainda sem saber para onde ia, a única certeza que tinha é de que não iria mais voltar.

 

SEUS PENSAMENTOS entravam e saiam da sua mente, sem nexo algum. Sentimentos de medo e esperança, memórias de sua vida, trechos de livros que leu e das conversas que teve… E se lembrou dos pequenos confortos de sua vida vazia: o cheiro do café, o pãozinho quente com um véu de manteiga, e assim percebeu que não sabia mais quando foi a última vez que comeu. Queria uma vida nova, sim, mas lembrou-se que para tanto, precisava cuidar de si mesma para poder sobreviver às grandes mudanças que estavam por vir. Foi exatamente assim, ao esquecer-se de si mesma e dos próprios sonhos, que sua vida foi se esvaziando até que aqui, finalmente, neste momento se encontrava.

 

E O DESESPERO cedeu completamente. No seu lugar, uma epifania. Como se o sol a saudasse pela coragem, uma onda de energia encheu seu coração. Sentou-se num banco e começou a admirar as nuvens, reparando em cada desenho fantástico que seus contornos traçavam no céu. Domou o pânico e todos os sentimentos que retumbavam em sua alma. Estava estupefata com sua bravura, com sua valentia de se desprender de todas aquelas amarras que lhes foram impostas, sentiu-se livre pela primeira vez.

 

TUDO ACONTECERA muito rápido, mas, agora que pensava racionalmente, nada a surpreendera. Seus pais sempre tiveram aquela postura de ferro e raramente ouviam suas opiniões. Nunca se perguntara sobre a justiça de seus atos, sobre o egoísmo (ou altruísmo) de suas decisões. Ou, pensando agora, nunca precisou questionar nada, pensar em nada fora de sua rotina.

 

E, DEUSES, como aquilo era libertador. Cada lufada de vento que beijava seu rosto era um bálsamo que parecia nunca antes ter sentido. Ela, que em 25 anos de existência nunca se opusera a nenhuma regra, a nenhuma imposição, encontrava-se ali, sentada em uma praça qualquer, em território desconhecido, inexplorado. Ela, que conhecia apenas a vida de pentes vermelhos, tomates-cereja e pão com manteiga, via-se rodeada de fuligem, janelas altas e sons cacofônicos. Nunca sentira tão perdida, tão avulsa. Tão livre.

 

SE A ÚNICA COMPANHIA, naquele momento, eram os seus pensamentos, ela, por um instante,  meditou sobre o outro lado da moeda; sobre a boa experiência adquirida até alcançar os 25 anos. Certamente, a decisão de se afastar, e lançar-se a uma estrada repleta de desvios incertos, atalhos nebulosos, forçaram-na, naquela altura da caminhada, a olhar a sua vida em retrospectiva. “Talvez, muitas vezes, é preciso sair da ilha para conhecer de fato os seus verdadeiros contornos”.

ELA, ASSIM, reconheceu que a busca por novos horizontes é própria da alma aventureira do ser humano, mas que não há como, seja para o lugar que nos dirigirmos, de deixar de carregar, internamente, as pesadas bagagens que vamos preenchendo com todos os elementos que nos constituem, e nos fazem únicos. Uma vez reconciliada com o seu passado, suspirou profundamente, e refez o caminho de volta. Naquele instante, as palavras de Guimarães Rosa, lidas ainda na adolescência, lhe fizeram sentido: “o real não está na saída nem na chegada: ele se dispõe para a gente é no meio da travessia”.

 

UM NOVO MAPA havia sido traçado, reorientando a sua travessia…

 

STORY-TEAM EDUARDO (PROPRIETÁRIO)

MILENA, MARY ANNE, CARLOS (COLABORADORES)

SÃO PAULO / SÃO PAULO, BRASIL 2017

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